O que pensam profissionais de beleza de SP que são eleitoras independentes? Veja na série 'Voto Pendular', do Jornal da Globo
25/08/2026
(Foto: Reprodução) Em busca do eleitor pendular: série mostra quem são os brasileiros que mudam de voto
Elas trabalham por conta própria, definem a própria rotina e são responsáveis pelo sustento da família. Mas, para as profissionais do setor de beleza ouvidas pelo Jornal da Globo em São Paulo na série especial Voto Pendular, a autonomia também tem um preço: jornadas longas, falta de férias remuneradas, sobrecarga e preocupação com o futuro dos filhos.
As histórias fazem parte do primeiro episódio da série que acompanha eleitores que mudaram de voto nas duas últimas eleições para entender o que pode influenciar suas escolhas em 2026.
Segundo a Quaest, os chamados eleitores independentes representam 32% do eleitorado brasileiro. São pessoas que não mantêm uma identificação permanente com um campo político e que já mudaram de voto.
A jornalista Renata Lo Prete e Felipe Nunes, diretor da Quaest e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), passam por São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador ao longo de quatro episódios.
A reportagem falou com três grupos de trabalhadores autônomos de SP:
entregadores de moto,
profissionais da beleza e
empreendedores da Zona Oeste.
O segundo grupo soma cerca de 140 mil pessoas registradas como microempreendedoras individuais (MEIs) na Região Metropolitana de São Paulo.
Janine Mendes Pereira, manicure, Helen Melo, cabeleireira, e Kelly Rosa, maquiadora, falaram sobre trabalho, família, política e as expectativas para o futuro.
Profissionais da beleza também prezam pela autonomia, mas defendem mais segurança, saúde e educação.
Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo
'As dívidas'
Quando Felipe Nunes perguntou o que motivava as profissionais a trabalhar todos os dias, Janine respondeu em tom de brincadeira: “As dívidas.”
A resposta provocou risos, mas a conversa mostrou que o trabalho representa muito mais do que uma forma de pagar as contas.
Para Helen, a principal motivação é a filha de 10 anos. Para conseguir trabalhar, ela precisa conciliar a rotina profissional com os cuidados da criança, que ficam divididos com a mãe.
“É bem corrido. Tenho que levantar cedo para levar para a escola, vir trabalhar, tenho minha mãe que fica com ela, para também poder trabalhar.” E mesmo com a rotina pesada, disse gostar da profissão.
Infográfico - Voto pendular: série do JG mostra quem são os eleitores independentes em São Paulo.
Arte/g1
A experiência de Helen também revela uma realidade comum entre mulheres que trabalham por conta própria: a necessidade de uma rede de apoio familiar.
Felipe Nunes destacou que, nesse caso, três gerações de mulheres estão envolvidas no cuidado da família. “Essa é uma questão muito comum no Brasil.”
A sobrecarga apareceu também na fala de Kelly. “É exaustivo para nós, ainda mais na nossa profissão. Porque nós trabalhamos praticamente de segunda a segunda, não temos fim de semana.”
Além de saúde e educação, segurança para as mulheres é outro ponto importante na métrica dessas mulheres.
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A autonomia que não permite férias
Assim como os entregadores ouvidos anteriormente pela série, as profissionais da beleza valorizam o empreendedorismo e a possibilidade de trabalhar por conta própria. Mas, segundo Nunes, as prioridades apresentadas pelas mulheres foram diferentes.
Janine destacou uma das principais dificuldades de ser MEI e trabalhar como prestadora de serviços: o descanso não é remunerado. “MEI é microempreendedor, porém a gente é prestador de serviço, a gente trabalha todos os dias. A gente precisa de férias, também.”
Ela explicou que não consegue simplesmente interromper o trabalho por um mês.
“Se a gente resolver tirar 30 dias de férias, a gente não consegue. Porque a gente não recebe por isso.”
Para Janine, a autonomia vem acompanhada da necessidade de trabalhar ainda mais para aumentar a renda. “A gente tem as vantagens e as desvantagens. Pouco tempo para ficar com a família e precisa trabalhar mais para ganhar mais.”
A diferença em relação aos entregadores chamou a atenção de Renata Lo Prete e Felipe Nunes.
“Na conversa com os entregadores ficou muito evidente a questão da liberdade como um atributo positivo do empreendedorismo individual. Poder fazer o próprio horário, escolher como trabalhar, tomar as próprias decisões”, afirmou Renata.
Segundo ela, as profissionais da beleza também reconhecem essas vantagens, mas deram mais importância à necessidade de descanso e proteção. Felipe resumiu a diferença:
“É como se estivéssemos falando, de fato, de dois perfis diferentes de empreendedores. De um lado, um perfil mais masculino, preocupado com o agora, com o dia de hoje, com o corre e com o aumento da renda. Do outro, mulheres que, obviamente, também estão preocupadas com a renda e com a satisfação no trabalho, mas que olham muito mais para o futuro.”
Nesse grupo, segundo o pesquisador, ganharam espaço temas como “proteção social, férias, remuneração e segurança”.
Profissionais da beleza contam o que esperam nestas eleições.
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Saúde e educação no centro das preocupações
Apesar da rotina intensa, as entrevistadas demonstraram disposição para participar das eleições de 2026. Janine ainda não havia escolhido candidato e disse que pretende esperar pelas propostas.
“Eu ainda não tenho um candidato. Eu quero ver propostas, sabe? Quero ver o que eles nos trazem.” Ela afirmou, no entanto, que pretende votar. “Eu voto. É muito importante.”
Kelly também disse que vai participar da eleição. Para ela, o hábito de votar foi aprendido em família. “Eu vou votar. Aprendi isso com meu pai e com a minha mãe.” Ela contou que, desde criança, esperava completar 16 anos para poder acompanhar a mãe até a seção eleitoral.
Kelly, porém, ainda não decidiu em quem votar. Helen, por outro lado, afirmou já ter escolhido seu candidato. Questionadas sobre o que pode influenciar a decisão, as profissionais destacaram principalmente serviços públicos.
“Em primeiro lugar, a saúde. E, em segundo, a educação”, afirmou Janine. A educação também é uma preocupação para Kelly, que tem uma filha matriculada em uma escola pública.
Ela contou que paralisações, greves e protestos ao longo do ano prejudicaram a rotina da família. “Sem aula, sem nada. Aí fica em casa. Vai fazer o quê? Muitas vezes fica no celular.”
Para as entrevistadas, portanto, as políticas públicas têm impacto direto na vida cotidiana. Creches, escolas, saúde e segurança não aparecem como temas abstratos, mas como condições para que elas consigam trabalhar e cuidar da família.
Felipe Nunes destacou justamente essa relação entre a participação das mulheres no mercado de trabalho e a importância dos serviços públicos. “As mulheres são as que mais reconhecem a importância e a diferença que o resultado eleitoral faz na vida delas.”
Segundo ele, questões como creche, escola e outros serviços públicos são fundamentais para que elas possam realizar seus projetos pessoais e profissionais.
O que esperam mulheres trabalhadoras autônomas de São Paulo com esta eleição.
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Medo da violência também pesa
A segurança pública apareceu como outra preocupação entre as profissionais. Janine contou que mudou até a maneira de andar pelas ruas por causa do medo de ser assaltada.
“Eu nunca ando devagar na rua. Por isso mesmo, por causa da violência. Eu sempre ando mais rápido.” Ela disse que, à noite, evita caminhar pela calçada. “Ando mais para o lado da rua, porque eu tenho medo de andar na calçada.”
A preocupação é especialmente relevante entre as mulheres, segundo Felipe Nunes. “Quase 60% dos brasileiros têm medo de andar nas ruas sozinhos. No caso das mulheres, esse número chega a 75%. Ou seja, é muito mais dramático para elas.”
Kelly também falou sobre o medo da violência contra as mulheres. “É triste viver com medo.” Para ela, o tema precisa receber mais atenção. “É um absurdo termos que passar por isso."
A preocupação com segurança se soma às questões de saúde e educação e ajuda a formar o conjunto de temas que pode influenciar a decisão dessas eleitoras.
Otimismo e preocupação com o futuro
Apesar das dificuldades, as três demonstraram uma visão relativamente otimista sobre o futuro. Janine afirmou: “Eu estou otimista, tenho fé que, se não for agora, uma hora vai dar certo.”
Kelly também se declarou otimista e disse que gostaria de trazer o filho de volta ao Brasil. A preocupação com os filhos apareceu diversas vezes nas conversas. Kelly afirmou que boa parte do esforço das mulheres está ligada justamente à tentativa de garantir um futuro melhor para as próximas gerações.
“A gente corre bastante, mas é mais por eles do que pela gente mesma.”
Para Felipe Nunes, essa perspectiva ajuda a diferenciar o grupo das profissionais da beleza dos entregadores entrevistados na mesma cidade. “Estamos falando de mulheres, claramente, que têm sonhos profissionais, que querem ganhar o próprio dinheiro, que estão batalhando por uma vida melhor para elas, para os filhos e para as famílias.”
Além da perspectiva de futuro, o pesquisador chamou a atenção para a relação dessas mulheres com o voto. “A ideia do cuidado e do compromisso com o voto aqui pareceu maior do que no outro caso.”
Segundo ele, esse comportamento também aparece nas pesquisas. “As mulheres estão, em média, cada vez mais comprometidas com o voto do que os homens.”